ouveLer Ana Luisa Amaral

Visitações, ou poema que se diz manso 

De mansinho ela entrou, a minha filha,  

A madrugada entrava como ela, mas não
tão de mansinho. Os pés descalços,
de ruído menor que o do meu lápis
e um riso bem maior que o dos meus versos.  

Sentou-se no meu colo, de mansinho.  

O poema invadia como ela, mas não
tão mansamente, não com esta exigência
tão mansinha. Como um ladrão furtivo,
a minha filha roubou-me inspiração, 
versos quase chegados, quase meus.  

E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime. 

Ana Luísa Amaral, Às vezes o paraíso